O mar é surpreendente.
Tudo começou com entusiasmo de criança, e eu era mesmo! Minha primeiríssima experiência com uma prancha dentro do mar foi desastrosa! Era uma manhã ensolarada em Rio das Ostras, litoral do estado do Rio de Janeiro quando meu paidrasto Cadu, surfista - diga-se de passagem- resolveu me emprestar o foguetinho dele. Na fila esperavam meu irmão e minha mãe que também queriam os 15 minutos de fama no surf. Acho que não passaram de 15 milésimos.
Entrei no mar feliz da vida, aquele mar azul, a água transparente... Estava empolgadíssima sem saber bulhufas do que eu precisava realmente fazer. Remei, remei e remei. Peixinho desde bebê e amante da praia desde o primeiro contato com a areia, percebi que insistindo poderia conseguir alguma coisa. Vi aquela protuberância de água no horizonte e escutei Cadu gritando “rema thaminha, rema!” Eu remei, remei e remei e nessa de remar eu fui parar na areia parecendo um peixe mesmo, só que empanado!
Foi só a minha primeira experiência.
Em outro dia ensolarado, lindo de viver na praia de São Marcos em São Luís do Maranhão estava de bobeira na praia caminhando sem rumo pela areia com uma amiga mais do que especial, minha fiel companheira na época, Pâmela quando conversávamos sobre a arte de surfar. Destaco que ela dividia comigo a mesma curiosidade por tudo o que proporcionasse o mínimo de adrenalina. Era uma amizade tão divertida!
Na peregrinação pela praia olhamos de longe dois caras simpáticos com duas pranchas ao lado. Resolvemos com a cara e a coragem conversar com eles sobre esse esporte que conhecíamos tão pouco. Contei a eles minha experiência surfística em Rio das Ostras e fui sincera quanto ao meu desempenho. Apenas ressaltei com muita paixão o meu desejo de experimentar o surf novamente. Naquele momento senti algo diferente, como se fosse mágica mesmo.
Não lembro o nome deles, mas com certeza não eram de São Luís. O que importa é que – por algum interesse ou não - eles resolveram realizar o meu desejo, naquele caso, o nosso desejo. A Pâmela estava animadíssima com a idéia. Tínhamos 15 anos na época.
Entramos no mar com um sorriso que não cabia nosso rosto. Apesar de meninas e vaidosas não exagerávamos nas “frescuras”. Mais uma vez remei, remei e remei. Não fui muito além com a prancha. Tentei ficar em pé já na espuma da espuma da onda. Quando conseguia alguma coisa era impressionante o quão rápido estava dentro do mar de novo. Sem prancha, sem nada. Mas feliz e satisfeita.
Depois de dar muito trabalho aos nossos professores, saímos do mar literalmente igual a duas crianças: saltitantes e sorridentes. Conversamos mais um pouco com nossos novos amigos e só. Fomos fazer não lembro bem o quê, acho que fomos para casa. O que eu lembro muito bem era a vontade crescente que eu sentia em ter um foguetinho só para mim e entrar no mar e ter aquela sensação inexplicável a qualquer momento.
Bom, minha mãe não apoiava muito a idéia, achava que era esporte de menino. Na verdade acho que ela não levou muito a sério essa coisa de ter uma filha surfista. Mas felizmente fiz uma viagem dias depois para Fortaleza no Ceará com o meu pai Márcio – por um acaso ele estava morando em São Luís, é raro ele parar em um lugar- que também é surfista. No segundo ou terceiro dia de viagem, sentados de frente para o mar assistindo a galera pegar onda na praia do Futuro, confessei para ele que estava sonhando acordada em surfar e que gostaria muito de ter uma prancha para poder aprender.
Desenrolado, comunicativo, ele não pensou duas vezes e foi falar com um surfista de areia que estava sentado há uns 3 metros da gente. Aliás, fomos. Conversa vai, conversa vem, não é que o local ofereceu a prancha dele, bem gasta - mas dava para gastar mais - com uma manta por R$80??! Meu pai não pensou duas vezes e fez a felicidade da filha. Entramos imediatamente no mar.
Só que dessa vez eu não fui muito atrevida. O outside estava longe demais para uma iniciante ficar sozinha no meio de um monte de gente desconhecida... Bom, foi o que meu pai pensou. Mas o que estava importando para mim era que eu finalmente tinha a prancha que tanto sonhava... E era minha!
A viagem foi perfeita. Voltamos, e a primeira coisa que fiz quando cheguei a São Luís não foi surfar porque já era noite, mas contar tudo sobre a viagem com o maior orgulho para a minha mãe e para o meu paidrasto Cadu. No outro dia estava cedinho na casa do meu pai insistindo para ele me levar para surfar. Ele conhecia a galera do surf toda. Apresentou a filha aprendiz de surfista para os locais. Foi quando finalmente eu me senti em casa e segura para encarar o mar, sozinha.
Eu fiz isso. No outro dia, fiz de novo e de novo e de novo. Contava nos dedos os dias surfados. Contava também quantas ondas pegava por dia. Lembro que no sétimo dia de surf, consegui remar direitinho em 4 ondas. Só remar direitinho. A evolução veio com a prática, claro. Ficar em pé e dropar a onda de verdade também. Pensava que ficar em pé na prancha era a única dificuldade, mas percebi que não era só.
Ficar em pé seria conseqüência do equilíbrio ao deitar na prancha, remar em cima da prancha e até ao sentar na prancha para esperar a onda no outside. Tudo é uma arte, cada ação é diferente. Fui descobrindo aos poucos. Fui me descobrindo no mar aos poucos. No início eu me sentia externa ao mar... Depois fui me sentindo parte integrante. Quase um peixe.
Respeitar o mar foi outro grande aprendizado. Não só porque o mar é imenso, forte e poderoso. Mas porque devemos compreender os limites de tudo na vida. Todos nós temos limites. Precisamos saber até onde podemos ir sem prejudicar nada nem ninguém. Precisamos entender a existência dos limites até mesmo para saber onde queremos chegar.
Não sou surfista profissional, mas sou surfista. Amo cada milésimo de segundo dentro do mar e sim também aprendi a dropar ondas e acho que faço bem.
Crônicas de uma surfista...
ResponderExcluirlegal!